A passagem de ano a conduzir numa auto-estrada cheia de dores deixava desde logo adivinhar um ano fantástico.
Seguiram-se péssimas notícias: a irmã da amiga que se suicidou, o caixão aberto sob a chuva e a mãe de olhos fechados todo o tempo a ser amparada para se manter de pé, a mãe de outra amiga que morreu, os dias cinzentos, a viagem para o Porto uma semana depois com o marido viúvo e o filho orfão, a pulseira do marido com o nome da mulher, o croissant inflacionado numa estação de serviço e o filho a dizer-me que ainda não acreditava que fosse verdade, eu sem saber o que dizer a tentar engolir o pequeno-almoço, a estadia no Porto sozinha, a discussão ao telefone, o egocentrismo da autocomiseração, a insistência da chuva, uma espera de quatro horas pelo comboio para voltar a casa e um telefonema a dizer que a mãe dos miúdos está em coma depois de uma operação simples, pouca esperança numa recuperação, o avô a cagar sangue, o desamor, a declaração: "2010 está a ser o pior ano de sempre" "Mas só estamos em Fevereiro..." "Então imagina o mau que foram estes dois meses."
E depois voltaram as boas notícias e com elas o Sol e o calor.
A amiga que está grávida, a mãe dos miúdos que recuperou, relações que se arrastavam moribundas terminadas sem mágoas, a amiga nova que fiz no congresso, a festa no quarto de hotel, o almoço no miradouro, os gelados e os crepes, as esplanadas, a amiga que foi tia a semana passada, a outra amiga que está à espera de ser mãe a qualquer momento, eu que também estou quase a ser tia, o Tomás que já está bom, a antecipação de um fim-de-semana cheio de amigos, Sábado O Casamento, os anos da Mãe, Domingo os d'A que não tem nome (Trinta mulher! Não sei se podia dizer mas carambas, é assinalável!), ainda Domingo um nervoso miudinho, a casa arrumada, uma conversa motivante com um professor, a tarde de ontem a beber sangria ao pôr-do-sol com vista para o Tejo, sentada no chão com uma amiga a falar de amor, claro, e a lua cheia a aparecer sobre o rio numa noite de Verão.
Já aconteceram tantas coisas e o ano ainda nem vai a meio, estou quase a perdoar-te Dois Mil e Dez.