sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Tremores de vida

Há tragédias tão grandes que não nos cabem na imaginação. Não conseguimos imaginar se: e se fossemos nós? E se fosse na nossa cidade? E se fossem os nossos pais, amigos, filhos, maridos, mulheres? E se fosse o nosso país. É um exercício demasiado doloroso para nos embrenhemos nele até ao limite da possibilidade, muito menos da concretização. Então, viramo-nos para dentro, para os nossos sismos pessoais, quotidianos e sobrestimados. A uma escala incomparável e obviamente desproporcionada, o processo da dor não deve ser muito diferente. Um sismo dentro do corpo e o coração lançado boca fora, aberto ao meio. Nós ao lado do coração, que um dia foi nosso e que agora, aberto, traçado ao meio, desagregado, não parece jamais voltar a caber dentro do corpo. Nós e o nosso coração ferido, no meio da rua. Esperamos então, esperamos por alguma ajuda, vinda de fora, dos outros, internacional, nacional, de perto ou de longe, não importa, precisamos dela. Alguém, que venha, tome o nosso coração com as duas mãos e o junte. Podem ser amigos, o colo da mãe ou as palavras sensatas do pai. Pode ser um homem ou uma mulher. Um consolo temporário, porque apenas precisamos que, naqueles momentos, alguém nos agarre o coração com as duas mãos e o faça bater novamente. Nesses dias, semanas, meses ás vezes, enquanto as mãos simplesmente nos seguram o coração, não se estabelecem conexões, ligações entre veias e nervos. Nada. Mas dói menos e ele já bate. Não nos preocupamos. Esperamos apenas que não hajam réplicas e que as coisas voltem ao normal. Um dia, muitas vezes, as mãos cansadas de nos segurarem o coração, largam-no. De repente ou lentamente. Ele fica ali, unido apenas pela força e é então, quando a dor já nos permite respirar, mesmo com duas metades tão fragilmente unidas que, começamos nós a reconstrui-lo. Com as nossas próprias mãos, pegamos nele, cuidamo-lo e um dia, voltamos a coloca-lo dentro do corpo para que, possa novamente ser nosso e voltar um dia a pertencer a alguém. No Haiti ou em qualquer parte do corpo ou do Mundo, será preciso força de vontade e tempo. Tempo.

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